Deitada há 2 dias numa cama com sangue, suor e um líquido verde que supostamente era normal

T. S.

 

A minha queixa:

46 horas de trabalho de parto…

Fiz uma reclamação contra a maternidade onde tive o meu parto para que futuramente não aconteça a ninguém. Espero ajudar alguém que tenha passado por situação semelhante.

Foi quarta-feira pelas 02 horas que as águas rebentaram. Fui tranquilamente para o hospital, quando cheguei fui de imediato parada por um segurança que por sua vez foi muito mal educado ao dizer que a minha irmã não me podia acompanhar, até aí tudo bem, regras são para ser cumpridas mas educação também. Segui entretanto já cheia de dores para uma sala, ligada à máquina do CTG aonde fiquei exactamente 1 hora e meia à espera de ser vista, isto cheia de contrações. Passado esse tempo de espera, chamaram me, fui observada e disseram-me que não tinha a dilatação feita, fui encaminhada para a sala de partos, tomei um banho e pus o clister como tal me tinham dito para fazer. Entretanto, deito-me ansiosa e nervosa pois para mim era tudo uma novidade, lembro-me que fiquei sozinha na sala horas e horas e não houve ninguém, tanto enfermeiras, como auxiliares ou médicos para falar comigo ou pelo menos dizerem-me os procedimentos.

Carreguei no botão para chamar uma assistente pois o meu marido estava à espera que o chamassem para entrar. Quando a assistente chegou, pedi para o chamar e obtive a resposta muito friamente de que o meu acompanhante ia ser chamado, e fecha-se a porta com uma brutalidade extrema. Pensei para mim o que se estava a passar, mas com o nervosismo deixei passar. Por volta das 04 horas, entra uma enfermeira e faz me o toque, durante o qual diz para outra enfermeira que estou com 2 dedos de dilatação. Fiquei sem saber o que se passava, entretanto dão-me um copo de água e um comprimido ao qual me disseram que era para induzir o parto, lembrando aqui que estava com 2 dedos de dilatação. Passado outra hora uma enfermeira entrou para outro toque, já eu cheia de dores sem saber o que se estava a passar, conforme entrou assim saiu sem uma palavra nem explicação, isto já por volta das 08.00 horas.

Como o meu cansaço era tanto acabei por adormecer e, quando acordei, tinha uma equipa em cima de mim a falarem entre si a questionarem se o que se fazia visto que eu não fazia a dilatação. Entretanto não sabia nada do meu acompanhante e lembro-me que naquela altura só queria alguém do meu lado para me dar a mão. Estava sozinha e desamparada.

Outro toque outro pacote de soro, outro comprimido, isto já era de tarde por volta das 13 horas, com fome, angustiada e revoltada a pensar no que se estava a passar pois nada me diziam, senti-me um rato de laboratório e volto a repetir rato de laboratório, quando devia estar feliz supostamente pelo que tudo indica é dos dias mais felizes das nossas vidas, para mim estava a ser um total tormento.

Tanto que pedi que lá acabou por chegar o meu marido isto já por voltas das 17 horas. Quando ele entrou perguntei o que se tinha passado ao qual ele me respondeu que nunca ninguém o chamou até porque estava numa sala ao lado à espera para entrar, como é possível isto acontecer? Completamente desumanos, porque me deixaram tantas horas sozinha e em sofrimento quando podia ter um apoio? Ali com ele senti-me melhor, as dores e o nervosismo continuavam.

Lembro-me que já era de noite e os toques continuavam. Um entra e sai de enfermeiras no quarto e eu continuava sem saber de nada, deitada carreguei no botão pois já não aguentava de dores e pedi para me darem epidural, esperei nervosa.

Lembro-me que me sentia suja e com a quantidade de toques que me fizeram e todos eles de uma maneira brutal até porque ainda hoje consigo lembrar-me da dor. Entretanto, entra uma médica para me dar a epidural, volto a lembrar que estava num estado de nervos, dores e um desconforto total, chorei muito e para meu espanto essa dita medica que me ia dar a epidural começou num berreiro comigo a dizer que não tinha perfil para a epidural, que era uma chorona e não ia aguentar, quando de repente se põe atrás de mim com os cotovelos a fazer pressão sobre as minhas costas com uma brutalidade total, magoou-me tanto e foi tão bruta comigo que eu desisti, quando eu disse que não queria pois não me estava a sentir bem a médica tratou-me com uma frieza e uma falta de educação nunca antes visto. Chorei muito porque estava num estado de nervos e pânico, ao que agora me questiono do porquê de ter sido tratada daquela maneira mais uma vez? Pedi a epidural por não aguentar mais as dores, é um direito que a mulher tem, mas mais uma vez a falta de profissionalismo se mostrou da pior forma, naquele momento só pensava que o bebé estava mal porque os meus nervos deviam estar a passar para ele.

Quando a médica foi embora, o meu acompanhante regressou ao quarto e eu comecei a sentir algo a escorrer pelas pernas, quando vi, para meu espanto era um líquido verde e escorria abundantemente, carreguei no botão para pedir ajuda. Quando me viram simplesmente disseram que era normal e assim saíram do quarto só com a explicação que era normal. Eu ali deitada há 2 dias a sentir-me suja, numa cama com sangue, suor e um líquido verde que supostamente era normal, já revoltada chamei pela enfermeira para mudar a minha cama. Enquanto a mudavam, pediram para eu ir tomar um banho e deram-me um clister, fiquei mais aliviada a pensar que finalmente ia ter o meu bebé nos braços. Deitei-me esperançosa mas fui esquecida por mais um par de horas, entretanto já era por voltas das 20 horas, comecei a questionar o que se estava a passar. Comecei a sentir fortes dores de cabeça, lembro-me de estar a suar muito e comecei a delirar a pensar numa maneira de fugir daquele sítio horroroso, o meu estado de desespero era tão grande que eu só queria fugir e ter o meu bebé em paz e tranquilidade.

Entretanto, já de madrugada, entra uma equipa médica no quarto e fazem o toque, pela milésima vez, como é possível, pensei eu, estou em estado avançado de dores, começo a entrar em pânico porque algo me diz e eu sentia que o meu bebé não estava bem, a máquina ao meu lado começa a disparar uns sons alarmantes e entram de rompante médicos para me analisarem e inserem dentro da minha vagina uma sonda para saber o que se passa com o bebé, pelo que percebi da conversa entre eles os batimentos cardíacos do bebé estavam muito elevados, começo em pânico, lembro-me que na altura agarrei na mão do meu marido e disse-lhe: Por favor tira-me daqui, quero sair daqui.

Nesta altura para mim já tudo deixava de fazer sentido, a falta de explicações do que estava a passar, a falta de respeito comigo, a falta de humanidade e de entreajuda dos médicos e de toda a equipa para comigo, ainda hoje me pergunto o porquê, nada fiz para me tratarem tão friamente.

Lembro-me que a máquina não parava de apitar e eu ali completamente angustiada e com medo do que pudesse ter acontecido, entra de novo enfermeiros para me fazerem o toque, foi aí que perguntei o porque de não me fazerem cesariana pois estou em sofrimento e o meu filho também, ao que me responderam que não é assim o procedimento, ou seja, o procedimento que tem de ser feito é ter uma mulher numa maca a esvair-se em sangue da quantidade de toques, ter uma mulher em sofrimento sem nunca dilatar mais do que 2 dedos, ter uma mulher numa maca já sem reação para nada a pensar que a qualquer momento pode morrer? Que tipo de profissionais são estes que fazem uma mulher pensar na própria morte com tal desespero?

Na sala de espera tenho os meus familiares e familiares do meu marido há 2 dias à espera de notícias, sem saberem sequer o que se estava a passar, disseram que não podiam comunicar nada do que se estava a passar, na qual apresentaram uma queixa no livro de reclamações e a polícia foi chamada ao local pois o desespero era muito como é óbvio.

Depois de me terem dito que não ia fazer cesariana porque o procedimento não era esse, acabei por adormecer de mão dada ao meu marido na esperança de quando acordar não passar de um grande pesadelo, ora quando acordo está tudo na mesma tirando a parte de que as dores estão a piorar e o meu estado também. Finalmente, por volta das 12 horas, 2 médicas de bata branca e 2 de bata amarela dizem-me que não fiz dilatação nenhuma, e isto que vou escrever está gravado na minha memória e ficará para sempre, a médica que eu presumo que fosse a responsável pela equipa disse para outra: “levem lá ela para a cesariana que isso não vai la de outra maneira…” e lá fui eu sem saber de nada levada na maca para uma sala aonde fui amarrada e adormecida, tudo isto sem uma palavra para mim.

Quando acordei o meu marido estava a chorar, a minha visão estava turva, estava completamente noutro mundo ainda, mas rapidamente me apercebi que algo não estava bem, ele continuava a chorar, pensei que o meu filho tivesse morrido, comecei a chorar compulsivamente, queria morrer, ali deixou tudo de fazer sentido…olhei para o lado e estavam 3 médicas, 2 das quais se não me engano eram pediatras, disseram-me que o meu filho tinha tido uma complicação à nascença e que foi internado de urgência por respiração do liquido mecónico…Estou ainda anestesiada sem perceber o que está realmente a acontecer, olho para o meu marido que continua a chorar.

Ninguém devia de passar por isto ninguém, não desejo a ninguém o que passei, ainda hoje penso revoltada que devia ter feito algo se calhar tinha sido tudo diferente, se calhar se tivesse sido escandalosa tudo se passava de outra forma.

Pedi ao meu marido para ir ver o bebé porque eu não podia nem conseguia mexer-me da cama, quando ele chegou perto de mim mostrou a fotografia que tinha tirado ao nosso filho, as lágrimas escorregam-me pelos olhos, é lindo, perfeito mas está todo entubado e aquilo para mim foi um choque…

Levaram-me para o quarto, só queria o meu filho comigo, foi isso que estava planeado, poder vestir-lhe a primeira roupinha, vê lo a dormir ao meu lado… Sonhei com esse momento durante a gravidez toda, desde preparar a malinha dele 2 vezes por dia, escolher ao pormenor a roupa dele, acho que toda a mulher sabe o que isso é.

Nessa noite deram-me um calmante para eu conseguir dormir e foi o que me valeu, na manhã seguinte esperei pelas 12 horas para o meu marido entrar para a visita para irmos ver o nosso filho à neonatologia, desci ate ao 3º piso e quando entrei e vi o meu bebe numa incubadora todo entubado, desfiz-me em lágrimas, mas lágrimas de revolta.

Passei 18 dias de sofrimento e angústia, 18 dias de revolta, 18 noites mal dormidas. O Duarte – é assim que ele se chama – foi muito forte e recuperou rápido, na neonatologia fomos muito bem tratados, sempre com enorme profissionalismo e sempre nos explicaram tudo ao pormenor, cada alteração do estado do Duarte era dito.

O Duarte ficou com hipertrofia muscular, ao que nos foi dito foi derivado da medicação muito forte que ele teve na neonatologia. Está a ser seguido por uma equipa de intervenção precoce. Hoje penso que se os profissionais estivessem estado à altura, se toda a equipa médica que me acompanhou tivesse sido profissional nada disto tinha acontecido, o líquido verde que me escorria pelas pernas que me foi dito na altura que era normal era o mesmo líquido que o meu filho respirou, já em sofrimento nessa altura, se tivessem feito logo a cesariana visto que não fiz dilatação em vez de estar a atrasar 3 dias para poupar mais uns euros se calhar o meu filho não tinha de ter passado por nada do que passou.

Já soube de mais casos de mães que felizmente estão bem mas que também passaram pelo mesmo na maternidade que supostamente é a melhor de Lisboa, essas mães e mulheres acima de tudo, assim como eu que ficaram traumatizadas mas que na altura nada fizeram, a elas lhes disse para fazerem o mesmo que estou a fazer neste momento, dei o meu apoio para que não percam a força e a determinação de fazer queixa, felizmente hoje o meu filho está bem, futuramente não sei que mazelas podem ter ficado. Não há noite em que me deite e não pense no que aconteceu, tenho pavor sempre que entro nesse hospital para ir às consultas com o Duarte, mas nada tenho a apontar aos profissionais e grandes profissionais que acompanharam o meu filho.

Vou fazer de tudo para que me ouçam, vão ouvir falar de mim, pode demorar meses ou anos mas não vou ficar sentada à espera que uma mulher morra numa maca de hospital ou um bebe morra por negligência.

Pomos nas mãos de profissionais as nossas vidas, e esperamos que nos tratem com profissionalismo, nada disso acontece. É triste quando me perguntam se quero voltar a ser mãe, não quero, não quero ter de passar pelo terror que passei, infelizmente…

Tudo farei para que se saiba o que se passa realmente nas salas de parto.

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