“Nem sei se fizeram o corte ou não, mas penso que sim:”

S.M.

Março 2013

 

Olá.

Após ter tido conhecimento do vossa associação e ter lido alguns dos relatos bastante difíceis, decidi partilhar a minha história. Infelizmente, sinto-me mal em partilhar a minha experiência com futuras mães pois acho que poderão ficar com medo. Mas a minha história não é boa. Durante muitos dias após o parto chorei muito e senti-me só. Nem o meu marido conseguia consolar-me.

No dia 11 de Março de 2013 às 10h fui para a maternidade pois estava a perder líquido há dois dias de forma anormal e achei preocupante. Quando cheguei e após ter esperado algum tempo colocaram-me as cintas para observação. Quando fui atendida pela médica, ela disse-me que estava a perder líquido amniótico e que teria que ficar internada. Fez-me o teste do toque e depois disse-me que me ia provocar o rebentamento da bolsa e que ia ser um pouco doloroso. Algo que ainda assim consegui suportar. Depois deste procedimento, fui encaminhada para o internamento e então comecei a perder muito líquido, mas era normal. Fui logo encaminhada para o bloco de partos, mas nunca me disseram se estava ou não a dilatar. Fiquei lá sozinha até o meu marido chegar com a mala. Durante muito tempo ficamos sozinhos e como não estava com contrações (ou pelo menos eram muito leves e espaçadas) disse ao meu marido para ir almoçar pois já estava na hora e pensei que podia ainda demorar. Quando ele chegou (o que foi pouco tempo depois) já estava a sentir contrações mais fortes mas ainda espaçadas.

Nunca me informaram em momento algum se me administraram algum fármaco ou não, mas na verdade penso que sim pois as contrações começaram a ser muito fortes e dolorosas e cada vez menos espaçadas. Proibiram-me de sair da cama, pelo que tive que suportar as contrações deitada, sem poder utilizar qualquer uma das técnicas que me tinham ensinado nas aulas de preparação para o parto para diminuir a dor.

Como não sabia com que dilatação estava, a única forma de avaliar se deveria ou não pedir a epidural no momento certo foi através do intervalo de tempo entre as contrações. Sabia que se deixasse passar muito tempo, depois poderia ser tarde demais. Quando senti as contrações mais próximas (de 1 em 1 minuto) chamei pela primeira a vez. Disseram-me que tinha que aguardar. Esperei mais algum tempo. Quando já estavam mais próximas ainda, voltei a chamar. Tive que esperar. Quando vi que já estavam muito pouco espaçadas voltei a insistir. Daí a pouco tempo, chegou a médica anestesista para me administrar a epidural. Tive que estar deitada de lado e sempre que sentia uma contração tinha que avisar e não me podia mexer. As contrações já ocorriam de 15 em 15 ou 20 em 20 segundos, pois não conseguia ter bem a noção do tempo. O que é certo é que estavam sempre a interromper pois as contrações eram muito próximas. Tive que suportar as dores que já eram horríveis sem me poder mexer e tentando não gritar. Só gemia. Não sei quanto tempo estive assim, mas pareceu um eternidade.

Quando finalmente me disseram que já tinham terminado, já estava uma equipa a preparar-se para o parto e disseram-me que era o momento. Percebi que não iria haver tempo para a epidural surtir efeito e nunca soube com certeza se a chegaram mesmo a administrar.

Começaram a dizer-me para fazer força sempre que começasse a sentir uma contração e assim fiz. No entanto, estavam sempre a dizer-me que não estava a fazer força no sítio certo e insistiam para que o fizesse. Eu não sabia como o fazer.

As dores já eram insuportáveis e pensava que não ia aguentar. Foi então que não consegui conter mais e comecei a gritar. Não o queria fazer, mas não conseguia controlar. Começaram a dizer-me para me calar, que não podia gritar pois assim não fazia força no sítio certo. Mas por mais que tentasse não conseguia conter. Isto continuou até que o médico pediu à médica que estava a fazer o parto para se afastar e então disse que teriam que utilizar os fórceps.

Não sabia o que ia acontecer, o que é certo é que no momento em que julgo que introduziram estes instrumentos senti uma dor ainda mais horrível que não conseguia aguentar e então não conseguia parar de gritar, embora me estivessem sempre a mandar parar. A partir deste momento, embora estivesse consciente, não me lembro de nada a não ser da dor que estava a sentir. O meu marido contou-me que teve que ameaçar uma enfermeira que se colocou em cima da minha barriga para empurrar o bebé. Mas se não fosse ele, eu nem me lembraria disto.

Quando finalmente a minha filha nasceu, senti então um alívio enorme e deixei de sentir dor. Não ma colocaram logo no meu peito pois foram limpá-la. Nem me consigo lembrar do primeiro choro dela. Tive que pedir ao meu marido para verificar se estava tudo bem.

Quando a colocaram no meu peito já estavam a coser-me. Nem sei se fizeram o corte ou não, mas penso que sim. No entanto fiquei com uma cicatriz que foi até a um dos lados nas nádegas e penso que levei imensos pontos. Quando perguntei à medica quantos pontos tinham sido necessários, nem me respondeu. O que é certo é que durante 15 dias mal me conseguia sentar, andar e para além disso fiquei com hemorróidas enormes e externas.

Tive que ficar na maternidade 5 dias pois a minha filha teve que fazer fototerapia. Só ao fim do 3º dia me informaram que ela tinha fraturado a clavícula esquerda no parto e que tinha que ter alguns cuidados. Mas não me disseram logo porquê?

Verifiquei que a minha dieta no hospital era diferente das restantes mas nunca me disseram nada. Percebi mais tarde, que talvez estivesse com hemorragias. Não consegui defender-me nem questionar porque me sentia mal, tinha vergonha de ter gritado. Passava os dias a chorar, só queria ir para casa. Chorava por mim e pela minha filha.

Tive que retirar leite com uma bomba para que ela recuperasse o peso totalmente, mas tinha que ir para uma pequena divisão fria e desconfortável para o fazer. Ninguém me apoiava e tinha ser eu a levar a bebé para a sala das enfermeiras e depois levar o leite quando mal conseguia andar. Retirava o leite de pé e ao frio pois não me conseguia sentar na cadeira.

Não dormia nada. Nem de dia nem de noite. Quando acabava de amamentar, tinha que ir tirar leite. Quando ia começar a descansar já estava na hora de amamentar. A única coisa que eu queria era ir para casa pois não conseguia ficar mais tempo ali. Nunca fiz nada, mas hoje arrependo-me. Acho que por estar psicologicamente em baixo e sem forças não fiz nada.

Hoje estou grávida de 31 semanas e tenho medo. Quis ter outro filho pois sou filha única e por mais traumática que tenha sido a minha experiência, quero que a minha filha tenha irmãos, pois eu nunca tive essa felicidade. Sei que a minha mãe não quis ter mais filhos pois também passou por um parto traumático. Sei que é errado, mas só penso que quero uma cesariana. Tenho pavor de pensar que vou passar por tudo novamente, embora me digam que vai ser diferente e que todos os partos são muito diferentes. Mas quem pode afirmar isso? Quem me garante que vou ter a epidural a tempo ou que não vai ser novamente necessário a utilização de fórceps?

Estou muito feliz, mas tenho medo.

Obrigada por poder partilhar a minha história.

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