“Provocarem o parto já que não iria ‘aguentar muito mais'”

S. Faria

Sempre sonhei ser mãe, adoro crianças, trabalho com elas e sempre me imaginei mãe desde pequenina. Pois bem, chegou o meu dia 🙂 Foi uma gravidez super tranquila, sem enjoos, com pouco aumento de peso, apenas uma azia no final. Fiz o curso de preparação para o parto com uma CAM e enfermeira no local onde iria ter o meu bebé, visitei o hospital, instalações, tudo! Era um hospital “amigo dos bebés” e, pela forma como falaram pareceu-me mesmo isso. Acessíveis, abertos, respeitando a mulher e o bebé. Disseram-me que podia levar música, usar a bola de pilates, mexer-me à vontade e que todas as salas de dilatação estavam preparadas para se realizar nelas um parto. Estava muito tranquila e confiante, com os receios naturais de qualquer recém mãe mas com a certeza de que estaria com profissionais. Eu relação à amamentação, sempre sonhei amamentar. E tinha a ideia de que iria colocar o bebé na mama e ele iria mamar, tão simples quanto isso.

Estava de 35 semanas e dirigi-me ao hospital para uma consulta de rotina. Não tinha dores, perdas, desconforto, nada! Ligaram-me ao CTG e eu na brincadeira disse para a enfermeira “já vou cá ficar!” e ela “não, ainda é muito cedo…”. Tinha contrações a 100 e já estava a entrar em trabalho de parto. Mandaram-me para casa de repouso e lá voltar na semana seguinte para reavaliar. Voltei. Fiquei internada para me provocarem o parto já que “não iria aguentar muito mais” segundo a médica.

Mandaram-me vestir uma bata toda desabotoada atrás e colocar Microlax. A enfermeira fez-me quase jurar que tinha colocado o Microlax. Colocaram-me numa sala de dilatação, injectaram-me umas coisas e ali fiquei eu. Não podia comer nem beber. Estive assim desde as 9 da manhã até às 16h. Durante esse tempo muitas enfermeiras se dirigiram lá para avaliar como estava. A médica chegou e rebentou-me as águas para “despachar”. Porque “o bebé ia nascer hoje” segundo ela.

A partir daí comecei a ter contrações muito fortes e com dor. Deram-me a epidural e não aliviou absolutamente nada. Continuei cheia de dores e gritava. O meu marido começava a ficar assustado. A maternidade estava cheia de mães a ter bebés. De repente o meu corpo começou a querer fazer força. A enfermeira dizia que o bebé não podia nascer já pois estava uma mãe na sala de partos. (Mas afinal as salas de dilatação não davam para partos também?)

Eu não aguentava, o meu corpo pedia que eu fizesse força e eu não conseguia controlar. O outro bebé nasceu e levaram-me a mim para a sala de partos. O marido empurrou a maca. Cheguei lá e estava lá tanta gente! Senti-me muito desconfortável. Disseram-me: “Vá, passe para aqui”, o aqui era a maca de partos. Perguntei como, não me conseguia mexer! Arrastei-me. Veio uma contração e fiz força, mais outra e fiz força.
Implorei ajuda, gritava de dor. A médica diz: “S. tenha calma, na próxima contração ele nasce que nós damos uma ajudinha“.

Veio a contração seguinte e sinto a médica a cortar-me e uma enfermeira a saltar-me para cima da barriga e o bebé a sair de uma só vez.

Colocaram-no em cima de mim. Cortaram o cordão, nem foi o pai… Ele não chorava. O meu bebé não chorava.
Levaram-no, disseram-me que ele tinha de ir e eu ali fiquei. O pai foi com ele.

Arrancaram-me os restos do parto (senti mesmo puxarem-me tudo) e coseram-me. Senti cada picada da agulha a sangue frio. Colocaram-me gelo e uma fralda gigante e fui para uma sala.

O meu bebé estava nos cuidados neonatais. Colocaram-me numa sala com mães e bebés e eu estava sem o meu. Ninguém me dizia onde ele estava, como ele estava, o que ele tinha. Eu só o queria comigo.

De manhã levantei-me e fui procurá-lo. Encontrei-o e toquei-lhe pela primeira vez. Ninguém me dizia o que ele tinha. Nos dias seguintes chorava sempre constantemente, eu não queria aquilo para nós.

Deram leite adaptado ao meu bebé quando eu queria amamentar. O leite deve ter subido porque eu fiquei com mamas gigantes, ganhei febre, e dores insuportáveis. Queixei-me tanta vez e as enfermeiras davam-me Benuron. Eu queria amamentar o meu filho!

Finalmente ele veio para perto de mim. Nunca pegou na mama e nunca ninguém me ajudou com isso. Chorávamos os dois e lá aparecia uma enfermeira com o biberão. O leite não saía por nada. Nem com o bebé, nem a espremerem-me as mamas, duches quentes, bomba, nada. O leite não saía 😦

Senti-me o pior ser à face da terra, a pior mãe da história.

Chorei meses seguidos.

Odiei esta experiência.

Quero voltar a ser mãe mas não quero isto de novo.

Sinto que me roubaram pedaços, sinto-me violada, sinto que me vandalizaram, abusaram e levaram de mim coisas que eu podia e devia ter vivido com o meu filho.

Escrevo de lágrimas nos olhos pois, um ano depois ainda está tudo cravado em mim.

Se puder ajudar no que for, ajudarei para que isto não aconteça com mais ninguém.

Um bem haja!

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2 thoughts on ““Provocarem o parto já que não iria ‘aguentar muito mais'”

  1. S, a memória da dor, a que fica cravada no corpo, com trabalho emocional pode passar. Espero que, nesta vida, encontres absolutamente tudo o que precisas e mereces. Muito grata pela tua partilha.

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