“Eu estou no meu parto, deixe-me gritar!!”

M.P.

Dezembro 2014

Olá,

eu sou a M, tenho 29 anos e tive o meu primeiro bebé há cerca de 5 meses (8 de dezembro). Sou uma pessoa relativamente bem informada, mas nada me preparou para o meu parto. Vou copiar o relato que fiz do mesmo, num fórum. Peço desculpa pelo tamanho, ainda ficou muito por dizer. Quando penso nisto ainda sinto o estômago a embrulhar e as lágrimas vêm-me aos olhos. É ainda de acrescentar que durante o tempo de internamento ninguém me explicou nada quando o meu filho teve icterícia e teve de fazer fototerapia. E depois de eu pesquisar sobre o assunto e perguntar quais os níveis de bilirrubina do meu filho, responderam-me “para que é que quer saber isso?? não é médica, pois não? nem vai saber o que os valores significam!”

Já se passou quase um mês mas, mesmo assim, ainda me custa um pouco pensar no meu parto e nos dias que se seguiram. No entanto sinto que devo partilhar porque quanto mais penso em tudo, mais revoltada fico. Eu sempre fui muito positiva durante a gravidez. Acreditei sempre que tudo ia correr bem e o parto ia ser rápido e com uma excelente equipa. Não me arrependo de ter acredito nisso, até porque não ia ganhar nada se tivesse passado os 9 meses a pensar que o parto ia ser horrível. Mas foi mais para o horrível do que para o fantástico.

Tudo começou quando estava de 37 semanas e 5 dias. Já andava há alguns dias para dar um saltinho às urgências da maternidade porque sentia que andava a perder líquido. Fui adiando porque já tinha ido às urgências duas vezes por esse motivo (ao longo da gravidez) e nunca era líquido amniótico, mas sim urina. No entanto na consulta das 37 semanas a OB disse-me “atenção que se sentir líquido a sair, vá às urgências, não espere”. Como eu sentia líquido desde as 17 ou 18 semanas, e era sempre urina, não fiquei particularmente alarmada quando essa perda de líquido se manteve nessa semana. No entanto verifiquei que a quantidade de líquido tinha aumentado ligeiramente (nada de mais) e que estava a surgir em alturas específicas: quando eu me levantava, quando eu espirrava, etc. Então, por via de dúvidas, lá fui à maternidade no sábado. Fiz o CTG e estava tudo normal, estava convencida que me iam mandar para casa… fui observada por duas médicas e elas tiraram um pouco do líquido e fizeram um testinho que, alegadamente, detetava líquido amniótico. Para meu grande espanto esse teste deu positivo, um positivo muito ligeiro, mas ainda assim positivo. As médicas disseram-me que isso indicava que eu tinha tido uma ruptura da bolsa e que tinha de ficar internada. Elas foram muito frias e não me explicaram nada do que se ia passar. Eu insisti várias vezes “mas agora sou internada e o que acontece?”, e elas pareciam um bocado incomodadas por terem de me responder. Foi tudo muito vago “ah, logo se vê, vai depender…”, e eu “sim, mas qual é o procedimento? o que é que se costuma fazer?”…”se não entrar em TP natural, teremos de induzir”…”e essa indução consiste em quê?”…bem continuei com as minhas perguntas e elas a tentarem despachar-me o mais rapidamente possível. Para mim era tudo novo, eu estava assustada e não contava com aquilo, queria saber o máximo possível. Fui internada e fiquei numa sala com várias mulheres que também estavam à espera de entrar em TP ou da indução. Isto foi na noite de sábado, passei a noite lá (não preguei olho) e ao outro dia, por volta do meio dia, veio uma médica observar-me. Fez-me o toque, não sei se era o tal toque maldoso, mas acredito que sim. Não me avisou, apenas disse que ia doer um pouco. Disse-me que não tinha dilatação quase nenhuma, apenas dois dedos, e que a bolsa ainda não tinha estourado. A rotura devia ter sido noutro local, talvez na parte de cima da bolsa. Sem me explicar exatamente o que ia fazer, pegou numa agulha gigante (parecia uma agulha de tricotar) e gentilmente estourou-me a bolsa. Não doeu, fiquei grata por isso.

Colocou-me uns comprimidos na vagina (oxitocina?) para iniciar a indução de parto. A partir daí nunca mais deixei de perder líquido, não me podia levantar e andar mais de 4 ou 5 metros sem ficar com um autêntica poça de água nas cuecas. Perdi tanta água que já nem usava pensos, usava resguardos mesmo que duravam mais tempo (talvez durassem 40 ou 50 minutos). Por volta das 3 da tarde já estava com umas contrações jeitosas, mas a dor ainda era

perfeitamente suportável. Dilatação 4 dedos. Lá para as 5 da tarde as contrações já estavam bastante fortes, 6 dedos de dilatação. Pedi para me darem epidural (essencialmente porque sabia que ainda teria de esperar a partir do momento em que pedisse a mesma). Disseram-me “Estamos a limpar uma das box de partos para si, vá andar um pouco no corredor que daqui a

pouco chamamos para ir para a box e a anestesista dá-lhe a epidural.”. E eu lá fui. Passaram-se duas horas e nada. Já estava com contrações realmente fortes, difíceis de suportar, e nem numa cama me podia deitar. Perguntei várias vezes às enfermeiras se não se teriam esquecido de mim, e disseram-me sempre para voltar para o corredor que eventualmente me iam chamar. Por volta das 7 e tal, já a não aguentar as dores, fui ter com as enfermeiras, já chateada a sério a implorar para me levarem para a box.

Então uma delas ficou a olhar para mim com cara de parva e disse “Mas estávamos à sua espera, já temos a box pronta há muito tempo…ninguém a avisou?”. E lá entrei na box. Prepararam-me lá na cama da box, já tinha o soro e mais uma série de coisas na veia quando me dizem “olhe, pedimos desculpa, mas vamos ter de lhe pedir que vá para outra box. Temos uma grávida numa situação complicada e esta box é mais central, ela tem de ser vigiada mais de perto…”, então lá fui eu, ainda sem epidural, para a outra box. Lá pelas 8, a anestesista administrou-me a epidural. Eu estava na última box do corredor, a única que tinha uma parede que era um vidro e dava para a rua. Estava muito frio nesse dia e, para minha sorte, o aquecimento estava avariado! O quarto estava gelado. Depois de me administrarem a epidural, e sem verificarem a minha dilatação, toda a gente desapareceu do quarto e eu fiquei lá sozinha com a minha acompanhante. A minha acompanhante tinha passado o dia lá comigo, e ainda não tinha comido.

Comecei a sentir um alívio enorme e disse-lhe para ela ir comer, que provavelmente aquilo ainda ia demorar. Ela foi e eu fiquei sozinha.

Estava com muito sono, provavelmente efeito da epidural, então adormeci por breves instantes. De repente acordei com vómitos e uma sensação de desmaio.

Estava sozinha na sala mais afastada do corredor das enfermeiras. Não tinha como chamar fosse quem fosse. Comecei a gritar como podia “enfermeira! enfermeira”. Ao fim de alguns minutos lá apareceu uma. Eu expliquei o que estava a sentir. Ela olhou para mim e assustou-se de tão pálida que eu estava. Aparentemente tive uma quebra de tensão porque ainda não tinham “ligado” o soro. Colocaram logo o soro a correr-me pelas veias. Os vómitos passaram. Comecei a sentir comichão, uma comichão louca pelo corpo todo, não conseguia parar de coçar, todo o corpo comichava sem parar! Entretanto a minha acompanhante voltou. Ela chamou novamente a enfermeira por mim e eu disse da comichão. “É normal, é da epidural”. Fiquei com as costas em sangue de tanto coçar porque não tinha grande sensibilidade. Elas continuaram a dizer que era normal. Fiquei assim algum tempo, lá deitada.

Entretanto uma enfermeira disse que as minhas contrações estavam a diminuir e colocaram-me oxitocina intravenosa. De repente a epidural começou a deixar de fazer efeito e as contrações voltaram, mas desta vez muito mais fortes. Até aí eu tinha conseguido controlar tudo muito bem, mas a partir daí começou a ficar difícil. Dores fortíssimas, muito regulares, quase não tinha tempo para recuperar de uma contração e já estava a ter outra. Pedi várias vezes para me voltarem a dar epidural, mas ninguém estava disponível. Só me diziam “a maternidade está cheia, vai ter de ter paciência…não podemos fazer nada” e saiam do quarto. Estive a maior parte do tempo sozinha com a minha acompanhante. Chegou a um ponto em que, em desespero, voltei a chamar a enfermeira e lhe disse enfaticamente que precisava de outra epidural porque já não aguentava mais as dores! Então ela fez-me o toque e viu que eu estava com quase 9 dedos de dilatação. Foi falar com a anestesista e deu-me nova dose de epidural. Achei estranho ser a enfermeira a dosear a epidural, e não a anestesista, mas acreditei que ela sabia o que estava a fazer. Entretanto volta a fazer-me o toque e eu estou com 10 dedos de dilatação – “está com dilatação completa”, tem de começar a fazer força. Isto eram umas 23h. Chamou mais uma enfermeira e as duas começaram a dizer-me para fazer força. Eu não sentia vontade de fazer força, e também não sentia as contrações. Apenas sentia a dor! A dor continuou sempre, uma dor horrível, a dor toda do parto. Sei que era a dor toda porque não acredito que seja possível sentir mais dor do que senti.

Era insuportável. Mas não sabia quando estava a ter contrações, não sabia quando tinha de fazer força, nada. E foi aqui que as coisas começaram a passar todos os limites. Elas disseram-me que me iam dizer quando eu devia fazer força. Lá me disseram e eu tentei, e a partir daí só ouvia comentários deste género “está a fazer força no sítio errado!! como é que quer que a ajudemos se não colabora??” ao que eu respondia “não estou a fazer de propósito, não sei como fazer força, não sinto sequer vontade de fazer força” “Mas faça força…olhe, faça agora, é agora mamã, faça força pelo seu bebé!! Então?? Não vê que está a fazer isto mal? Assim não adianta nada!! Ele assim não vai descer mamã!” e eu em desespero “mas eu não sei o que estou a fazer de errado…e não sei porque estou com tantas dores, está a doer tanto!” “olhe se fizer força em condições as dores acabam mais rapidamente, não acha?”…e continuaram sempre assim. Não me explicavam como fazer força corretamente, mas culpavam-me de não fazer força corretamente. Fizeram chantagem emocional comigo “então não faz isto pelo seu filho?? faça força pelo seu bebé! Então não o quer conhecer?” como se eu estivesse a fazer de propósito para não fazer força. Estava com tantas dores que comecei a vomitar. No meio de tudo isto estava a sentir-me tão desmotivada e tão culpada por não estar a fazer as coisas direito (segundo elas), que me desconcentrei da respiração e deixei de conseguir conter a dor que sentia… comecei a gritar quando tinha contrações, gritava de tanta dor. Depois de uns 5 minutos com contrações de 1 em 1 minuto que me faziam gritar, entrou uma médica e disse “olhe, não grite! estão aqui várias mamãs que estão quase a entrar em TP e está a assustá-las. Algumas dele são novinhas, não pode mesmo gritar…”, enquanto ela está a dizer isto eu tenho outra contração fortíssima e grito (note-se que eu não estava aos berros, simplesmente dava um grito mais prolongado no pico da contração), e ela diz “Estou a falar disso!! Pare de gritar!” e eu respondo-lhe já bastante chateada “Eu estou no meu parto, deixe-me gritar!!”, e ela lá se calou. Continuou a mesma lengalenga que eu não estava a colaborar e que não queria conhecer o meu filho. Que eu tinha de me esforçar mais, que não estava a fazer o suficiente. Que estava a fazer força no sítio errado e que quanto mais tempo demorasse a fazer tudo direito, mais tempo ia demorar para deixar de sentir dores. Não ouvi uma palavra de incentivo. Só críticas e repreensões. Chegou a um ponto em que eu disse “eu desisto, eu não consigo, eu não consigo fazer mais força, eu não consigo continuar a tentar…” e a médica disse “pronto, não consegue então vai ter de ser instrumentalizado” e ouço-a pedir as ventosas à enfermeira. O Lucas nasceu às 00:02 com a ajuda de ventosas. Pedi logo para me darem o bebé, mas não deram, levaram-no para o limpar antes de mo darem. Não percebi porquê! Ele estava bem, chorou mal nasceu, teve 9 em 10 naquele teste que fazem logo mal nasce… mas quiseram limpá-lo antes de mo colocarem no peito. Depois colocaram o bebé no meu peito e começaram a coser-me. Não me disseram quantos pontos me deram, quando perguntei levei com uma resposta vaga “10 ou 11”. De um momento para o outro toda a gente saiu da sala. Fiquei só eu, a minha acompanhante, um bebé e uma enfermeira. A certa altura nem a enfermeira estava lá, apenas uma auxiliar a limpar. Eu estava nua naquela cama, naquele quarto sem aquecimento. Estava tanto frio que eu tremia sem parar, os meus dentes batiam uns nos outros de tanto frio que eu estava a sentir. Fiquei vários minutos a pedir um cobertor. Estive seguramente mais de meia hora a tremer de frio naquela sala até me darem um cobertor. Ao fim de 2 horas levaram-me para cima. O internamento depois também foi um filme horrível, tive de ficar lá 5 dias (mais o primeiro dia em que o Lucas ainda não tinha nascido, portanto foram 6 ao todo) porque o meu pequenino teve icterícia. Já estava a endoidecer de estar lá. Aconteceram muitas outras coisas, mesmo durante o trabalho de parto… mas fica para outro post que este já está gigante.

Tenho a certeza que o parto corre muito melhor a outras pessoas. A mim correu-me tão mal que não consigo pensar em ter outro filho tão cedo. Na altura pareceu-me tudo normal, mas depois pus-me a pensar nisto tudo e só conseguia sentir revolta. Se calhar este tipo de parto é mais comum do que eu imagino. Será? Foram estas coisas normais? O facto de adiarem ao máximo darem-me a epidural, esperarem até eu já não aguentar de dores, ignorarem o facto da segunda epidural não ter pegado, terem-me deixado sozinha durante horas a agoniar de dores, terem-me desanimado e culpado durante o período inteiro de expulsão…pareceu-me demais, eu queria um parto calmo e positivo, com pessoas motivadoras e otimistas. Se calhar eu é que queria demais.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s