Perda gestacional – “Uma mulher que passa por isto não deve ter que o fazer sozinha.”

M. J.

Depois de uma gravidez e parto fantásticos, queríamos muito repetir a experiência. Dois anos e meio depois, voltei a engravidar e não podíamos estar mais felizes! Porém, por volta das 8 semanas, adoeci e tinha ataques de tosse constantes, que me faziam expelir coágulos de sangue pela vagina. Fui várias vezes à urgência e o bebé estava sempre bem e a sintomatologia foi sempre desvalorizada. “Beba cházinho e repouse muito que isso passa”. Mas não passava e às 10 semanas comecei a sentir dor ao respirar e voltei às urgências onde me foi receitado antibiótico. Duas semanas depois, na eco das 12 semanas, a sala cheia com o meu marido, mãe e filha, ficou em silêncio quando o médico nos disse que o bebé não tinha batimento cardíaco. Parecia um pesadelo do qual não conseguíamos acordar. Viemos para casa e só me apetecia morrer. “Acontece em 1 entre 4 gravidezes. Ainda é nova, é voltar a tentar“. Não é de todo o que uma mulher que perde um filho quer ouvir. A dor emocional era tão grande que chegava a ser física. Como se me arrancassem o coração do peito vezes e vezes sem conta. Decidimos aguardar a expulsão espontânea: já havia um ligeiro descolamento e não deveria demorar muito mais tempo. O médico disse-me que voltasse depois para verificar se tinha saído tudo. Esperámos 2 semanas, despedi-me do bebé com uma carta e fiz homeopatia e reflexologia para ajudar na expulsão. Uma noite, depois de uma tarde cheia de moinhas, senti um “plop” e as minhas calças ficaram encharcadas. Passado uns segundos saiu a bolsa com o feto intacto: do tamanho do meu dedo polegar, perfeito, com olhos, braços, pernas e dedos. Guardei-o e comecei a sangrar. Depois de ter enchido quase meio bidé com coágulos e sangue em 20 minutos, comecei a sentir-me fraca e muito pálida. Medi a tensão arterial e estava a 9-5. De repente os sons pareciam que estavam a vir lá do fundo de um túnel e comecei a notar que tinha que fazer força para respirar: comecei a perder os sentidos. O meu marido ligou logo para o 112 e pediu uma ambulância, enquanto me segurava e falava comigo. Depois acho que me tentou vestir e lá descemos para o patamar e aguardámos a ambulância. Ainda perdi a consciência mais uma vez, mas uma vez na ambulância e com o ar fresco da noite comecei a sentir-me melhor.

Cheguei ao hospital (privado) por volta das 21h e pude estar sempre com o meu marido. Foi-me feita uma eco. Continuava a perder sangue a jorros e o médico sugeriu que fizesse uma raspagem porque o útero ainda estava cheio. Nós recusámos e como eu tinha comido jantar o procedimento não podia ser feito sem ter um jejum de 12h. Então quiseram pôr-me um indutor de contracções do útero mas eu referi que já tinha moinhas e não precisava. O médico foi algo brusco e disse que eu tinha que assinar um termo de responsabilidade porque ele não queria ser responsável caso algo me acontecesse. Eu disse que assinava e disse que queria falar com o meu médico. Ele ligou-lhe e passou-me o telefone. O meu médico tentou acalmar-me e explicou-me que eu tinha perdido muito sangue, que ele tinha plena confiança naquele médico e que era melhor eu tomar o indutor para ajudar a expulsar os restos (e evitar a raspagem). Lá acedi e passaram-me para um quarto de observação onde fiquei toda a noite. Infelizmente o meu marido teve que voltar a casa enquanto me preparavam e nessa viagem perdeu outro stress com o pessoal. Despiram-me e puseram a batinha. Em vez de pensos, puseram-me resguardos descartáveis dobrados em 3, tanto era o sangue que perdia… A tensão arterial estava a 7-4… Puseram-me a soro para não desidratar e não me deixavam beber água ou comer (que foi o que mais me custou porque passei a madrugada cheia de fome e sede). Só podia chupar compressas embebidas em água para manter a boca molhada. Depois puseram-me com o indutor: verifiquei com o pessoal que não interferia com a amamentação (da mais velha) e não me doeu mais por tê-lo. Toda a noite tive moinhas e fui perdendo sangue e coágulos. Vieram tirar-me sangue para uma bateria de análises. Por essa altura já tinha sido picada 3 vezes, com 2 veias canalizadas. Depois vieram dar-me um antibiótico injectável, que eu perguntei para que servia. Ficaram muito espantados por estar a questionar. A enfermeira ainda disse que eu tinha uma alteração nas análises e que precisava tomar, mas eu sabia que ainda era cedo para haver resultados. Aí veio a médica e perguntou com um tom agressivo se eu não queria ter mais filhos. Que o anti-b servia para evitar infecções. Que eu estava a ser uma paciente difícil (chegou a escrever isso no meu processo). Que aquilo era procedimento profilático (ou seja, não havia nada que a priori indicasse a necessidade real do anti-b) mas como não tinha feito um esfregaço para ver se tinha bactérias na vagina, que elas poderiam subir para o colo do útero (eu pensei logo que se tal fosse essencial o meu médico tê-lo ia feito na 3a feira quando lá fui à consulta e para mais o sangue sai, não retorna para dentro pelo que o fluxo é para fora, reduzindo o risco de infecção, mas não disse nada disto). Apenas pedi desculpa por não estar a corresponder às expectativas que tinham de mim mas que queria esperar pelo meu marido para decidir. Disseram que não podia esperar porque o antib era composto por 2 partes miscíveis e que tinha um prazo de validade muito reduzido. Depois entraram mais 3 enfermeiras e auxiliares que me fizeram um interrogatório de porquê não queria tomar o antib. Eu respondi que há 4 anos não tomava antib, fora que há cerca de uma semana tinha terminado de tomar clavamox, pelo que não haveria risco de os tecidos terem infectado enquanto aguardava a expulsão, e que ainda estava a amamentar por isso não queria comprometer isso. Disse que esperaria mais 5 ou 10 minutos e que se o meu marido não chegasse que me podiam dar o antibiótico. Houve uma das enfermeiras que me virou costas irritada e disse que não conseguia falar mais comigo. Saíram do quarto e ainda ouvi essa enfermeira a comentar com outra: “aposto que também é anti-vacinas” e fiquei 40 minutos sozinha a ouvi-las cochichar lá fora…

Depois lá entraram e acedi a tomar o antib porque comecei a pensar que não estava em casa, estava num hospital com germes e bactérias e onde me fariam ecos e toques o que contraria o fluxo para o exterior, e para além disso teria maiores probabilidades de poder aguardar mais tempo pela expulsão sem me pressionarem com a raspagem porque assim não havia tanto risco de infecção. Depois deste percalço, tudo acalmou e lá deixaram entrar o meu marido que já tinha chegado há algum tempo mas que foi deixado à espera de entrar. De 15 em 15 minutos mediam-me a tensão e de meia em meia hora até às 2h, vinham mudar-me o penso ou trazer-me a arrastadeira, se eu a pedia. Assim que eu chamava, vinham em poucos minutos. Todas as auxiliares, enfermeiras e até os médicos foram muito empáticos comigo a partir daí. A certa altura a médica veio ver-me e fez-me um toque e disse que havia coisas para sair. Carregou-me na barriga e pediu-me que tossisse. Saíram 2 coágulos do tamanho de bolas de andebol. Senti-me melhor e a tensão começou a normalizar.

Não consegui dormir quase nada porque tinha o medidor de tensão no braço direito e uma panóplia de fios do braço esquerdo e não me podia mexer muito. Estava cheia de moinhas na barriga e nos rins e não tinha posição.

O meu marido pôde ficar comigo todo o tempo, e dormiu numa cadeira ao meu lado. Às 6 da manhã lá me picaram para analisar o sangue: estava com 7 de hemoglobina e puseram-me a fazer 2 unidades de sangue (transfusão). Nessa altura já tinha uma “árvore de Natal” no “bobby” ao meu lado: uns 4 sacos com coisas a entrarem-me pelo corpo dentro. Depois lá me deram nova dose de antib e veio o médico para me fazer nova eco. Ele disse que havia boas probabilidades de não precisar de raspagem porque o fundo do útero já estava limpo e só havia uns restos perto do colo. O meu médico veio ver-me por volta das 9h e disse a mesma coisa. Mantiveram-me a soro e a indutor. E mudaram-me para um quarto individual na maternidade, onde podia estar com o marido e com visitas. Eu queria levantar-me mas a tensão ainda estava baixinha.

Entretanto às 14h (enquanto o marido almoçava no refeitório), vieram 2 médicos fazer-me nova eco. Continuava tudo na mesma e realmente eu não tinha perdido mais coágulos mas sentia que se pudesse pôr-me na vertical as coisas mudariam. Os médicos falaram entre eles de raspagem quando o bloco estivesse livre. Eu intervim e recusei. Eles ficaram espantados e perguntaram porquê. Eu respondi que não tinha sido esse o diagnóstico dos 2 médicos que me tinham visto de manhã e que queria aguardar o meu marido para decidir, mas que preferia aguardar mais um dia. Um deles perguntou: “mas você quer ficar com uma sépsis? Porque é que não quer a raspagem?” Eu respondi que visto que estava a fazer antib o risco de sépsis era reduzido e que uma raspagem pode danificar a parede do útero… E que queria falar com o meu médico primeiro e tentar pôr-me de pé e expulsar o que restava. Eles ainda me chantagearam com o “se fizer a raspagem em 15 minutos fica despachada e dentro de 2h pode ter alta; ou então tem que ficar cá mais uma noite e um dia em observação”. Mas eu disse que queria esperar para tomar uma decisão.

Eles foram-se embora contrariados e deram ordens para eu continuar em jejum até ser novamente avaliada. Por volta das 16h vieram medir-me a tensão arterial e já estava a 11-7. Deixaram-me levantar e ir à WC e saiu-me logo um coágulo mole do tamanho de um fígado de porco. Entretanto decidi pôr-me de cócoras e tossir e fazer força e consegui expulsar outro coágulo maior que uma bola de ténis, com a forma de um coração e muito rijo, cheio de vasos sanguíneos. Depois tomei um banho e descansei e já não perdi muito sangue. Entretanto terminou o indutor e às 18h lá me fizeram nova eco e disseram que tinha saído tudo!!

Foi muito bom a médica ter-me ajudado a expulsar os primeiros coágulos grandes, porque depois disso mais ninguém se lembrou de o fazer. E se ela não tivesse feito aquilo se calhar eu não me tinha ocorrido no dia seguinte que teria que fazer força e tossir para ajudar a sair os outros coágulos. Sei que provavelmente eles acabariam por sair, mas queria que fosse rápido para evitar um internamento mais prolongado ou mais intervenções.

Pude jantar de imediato e depois dormitei. Novas análises e a hemoglobina estava a 7.9 e tive alta por volta das 23h! Com a recomendação de muito descanso nos dias seguintes e uma alimentação suplementada com ferro.

Passados 6 meses voltei a engravidar. Sem estar realmente nos planos e com algum receio mas com muita esperança que desta vez, tudo corresse bem. De que a outra vez tivesse sido só um azar. Tudo corria bem, até às 12 semanas, em que 2 dias antes da consulta, senti a barriga dura de manhã e depois perdi um pouco de sangue vivo de tarde. Quando cheguei às urgências, o pior voltou a confirmar-se. Decidi, como da outra vez, aguardar a expulsão espontânea, que aconteceu semana e meia depois. O processo de aborto deu-se logo às 8h30 da manhã e fomos logo para o mesmo hospital (privado).

Foi tal como da 1ª perda: rebentaram as águas, saiu o saquinho com o bebé, e comecei a perder sangue. A caminho do hospital perdi muito sangue e desmaiei. No hospital voltei a desmaiar quando me levantei para me tirarem as calças e continuava a perder muito sangue (eles nem me conseguiam tirar sangue para análise por baixa volémia). Optaram por não me dar transfusão e coagiram-me a tomar 4 comprimidos rectais de misoprostol, apesar de eu já me sentir melhor e a tensão arterial ter aumentado um pouco. A médica foi muito bruta a observar-me (magoava-me a inserir o espéculo e dizia que eu não podia fechar as pernas, algo que era automático quando ela me magoava). Era muito fria e altiva no trato. O meu marido pôde ficar comigo mas ela estava sempre aos gritos porque eu estava a “dificultar-lhe a vida”: chegou a dizer a uma colega, à minha frente, que não podia estar ali o dia todo a perder tempo comigo porque tinha de ir fazer uma cesariana e eu lhe estava a atrasar o dia porque me “recusava” a fazer logo a raspagem. Digo “recusava” porque até então ela nunca me tinha falado em raspagem. Os produtos uterinos continuavam a sair sem problemas. Ameaçou-me de que eu ia entrar em choque dentro de 10 minutos e que podia morrer, que o meu útero estava muito pequeno e não conseguia massajá-lo e que ele se estava a encher novamente de sangue e se eu tivesse uma nova hemorragia que morria. Nessa altura eu já não estava a perder sangue e disse-lhe que queria aguardar e lá me levaram para um quarto. A tensão arterial estava a normalizar e eu sentia-me bem, estava com contrações e a conseguir expelir os coágulos quando – passado 2h – ela me entra pelo quarto e me faz uma eco e diz que aquilo está mais cheio e que vai ter que fazer raspagem. Nisto entra o chefe do serviço e começa aos berros comigo e com o meu marido e diz que se eu quero cometer suicídio que eles ali não compactuam com isso. Depois vira-se para o meu marido e diz-lhe “se você quer deixar a sua mulher morrer não conte comigo”, que ali a decisão é dele e que é para eu ir já para o bloco porque posso entrar em choque a qualquer momento e que aí ele tem total autoridade para actuar como quiser. Ainda acrescentou que tem mais de 100 casos daqueles por ano ali no hospital e tem muita experiência no assunto. Eu perguntei-lhe quantas dessas 100 mulheres ele já deixou ter um aborto de forma espontânea e ele não me respondeu. O meu marido pediu alguns minutos para pensarmos e ele virou-nos costas a dizer que pensássemos bem porque ele tinha mais que fazer e tinha que ir ver outros pacientes e que se recusássemos tínhamos que assinar um termo de responsabilidade. O meu marido disse-me que da outra vez eu tinha levado uma transfusão e desta vez não, por isso se realmente eu voltasse a perder sangue podia ser perigoso. Eu ainda pensei em pedir uma transfusão primeiro mas o meu marido estava muito aflito e já sabíamos que se a situação agravasse eu ia voltar a ficar anémica e a demorar ainda mais tempo a recuperar e então deixei de lutar e permiti a intervenção. Ainda me mentiram mais: disseram-me que tinha que ser anestesia geral (podia ser epidural, mas eu na hora H quando descobri – pela anestesista, que era uma querida – recusei porque teria que ficar lá em observação por 12h enquanto que com a anestesia geral poderia ter alta no próprio dia). Depois ao final da tarde lá me deram alta. A médica apenas me deu as análises após a intervenção e informou que teria que ir à consulta de revisão daí a uma semana. A enfª ajudou-me a vestir mas eu estava com a tensão tão baixinha que desmaiei a levantar-me da cama e de novo a caminho do carro (nem cadeira de rodas me foi facultada para sair do hospital) e novamente no elevador do meu prédio.

Em casa, ainda sentia a minha pulsação nos ouvidos e estava muito pálida e com tonturas quando me levantava. Ninguém me avisou do tubo na garganta durante a anestesia geral (fiquei com a garganta toda arranhada e o maxilar dorido) mas de resto não sinto dores nem perdi mais sangue (só borras).

Estou muito desiludida com o atendimento no hospital e com a falta de sensibilidade dentro e fora dele. Sinto que há uma grande falha no atendimento à mulher que passa por uma perda gestacional. Cheguei a fazer queixa à ERS e recebi uma resposta do Hospital dizendo que o que foi feito foi no meu melhor interesse e que contavam que eu continuasse a depositar a minha confiança nos seus profissionais. Ironia do destino, 2 meses depois marquei consulta estava eu grávida de 11 semanas, e a consulta foi “misteriosamente” desmarcada pela chefe das enfermeiras da consulta externa e nunca mais foi remarcada. Três meses depois, após várias tentativas de remarcação, recebo um telefonema da direcção clínica a pedir-me desculpa pelo sucedido (quando eu referi que iria fazer nova queixa por carta directamente para o hospital).

Uma mulher que passa por isto não deve ter que o fazer sozinha, é um parto, é pior que um parto porque não há bebé no final. Gostaria de ter tido quem acreditasse em mim, quem me massajasse durante as moinhas, quem me desse um copo com água quando tive sede. Graças a Deus que tive o meu marido sempre ao meu lado, a dar-me a mão e força durante o processo, mas ele também estava muito aflito e também beneficiaria de uma presença de suporte.

Estou a dizer-vos isto porque quanto mais mulheres souberem e sentirem isto, mais consciência se vai abrir para esta necessidade. Eu própria tenciono voluntariar-me para apoiar mulheres que passem por isto.

Agora até penso em pormenores que me deixam mais triste por outras mulheres que passem pelo mesmo: durante o internamento, estive num quarto individual no bloco: ouvia os recém-nascidos chorarem, ouvia as enfermeiras falarem do progresso dos trabalhos de parto em curso e até dos pormenores das preparações para cesarianas no bloco… Apesar de não me ter feito muita confusão na altura, acho que nenhuma mãe que esteja a passar por um aborto quer estar nessa situação. Depois durante o dia lá me levaram para um quarto numa das pontas da maternidade, mas ainda ouvia os bebés chorarem e via as famílias passarem com flores e prendas quando saía do quarto embora já estivesse mais resguardada…

Estou muito desiludida com a perda mas quase tanto com o atendimento, porque tive que passar duas vezes por uma situação assim…

 

 

Anúncios