“Respeitar a vontade das pessoas não faz parte do protocolo.”

C.

2014

Gostaria de partilhar a história do meu parto recente.

Considero-me uma sortuda quando ouso comparar o meu parto com o de outras mulheres. No entanto, ao olhar para o meu parto de modo isolado, não foi propriamente o que gostaria que tivesse sido. Correndo o risco de ser mal interpretada, exponho aqui a minha visão das coisas. Tive momentos muito bons neste processo, no entanto, houve outros em que me senti violada, roubada. Acredito que com esta partilha, estas situações podem ver a luz e ser transformadas, podendo tornar-se o Parto no maravilhoso momento que ele é, em essência.

Aqui partilho, de coração, a minha história…

***

Este foi o meu primeiro parto. Esta gravidez foi maravilhosa! Foi recebida com muita alegria e entusiasmo, em Novembro de 2013. Desde antes da gravidez, sonhava com um parto na água, de um modo muito subtil. Nunca fiz muitos planos sobre isso. Simplesmente, deixei acontecer. Ao engravidar, quando comecei a pensar no parto e naquilo que poderia fazer para me preparar, esta ideia surgiu logo. Acima de tudo, o meu desejo era ter um parto natural, dentro do possível. O primeiro passo que dei foi tentar saber se no hospital (Hospital de São João – Porto) que tinha pensado para tal haveria essa possibilidade. Tinha ouvido dizer que lá havia uma sala de parto humanizado e uma piscina disponível para parto na água ou algo semelhante. Fiquei muito dececionada, quando uma amiga enfermeira, colaboradora deste hospital, me informou que essa sala estava desativada de momento. Isto aconteceu em Janeiro deste ano. A partir daí, lancei-me numa busca para decidir onde e como poderia viver esse momento tão importante. Sabendo que em nenhum outro hospital público na zona Norte (vivo na Maia – Porto) haveria essa possibilidade e tendo em conta a minha vontade de ter um parto num ambiente o mais aconchegante possível, surgiu como única hipótese viável o parto domiciliar.

Ao expor o assunto ao meu companheiro (marido) e pai do meu filho, ficou claro que a ideia de um parto natural, sem intervenção médica, o assustava. Explicando: ele até é apologista do parto natural, assim como de tudo que a natureza proporciona e com que nos abençoa, mas todos os mitos sobre o parto e o desconhecimento dele em relação a muitos pormenores do processo aliados à inexperiência, levavam-no a desconfiar de uma situação de parto em casa, sem rede de apoio. Obviamente, eu também não me sentia preparada para o fazer sozinha, mas tinha a noção e a intenção de o fazer na presença de profissionais devidamente qualificados para tal e em quem eu sentisse verdadeira confiança. Procurei e perguntei, tendo obtido um contacto de um enfermeiro especialista em obstetrícia e parto natural que tinha acompanhado os dois partos de uma amiga. Assim, depois de muita conversa e alguma discussão, lá consegui convencer o marido a conversar com o dito profissional, numa perspetiva de ficar a saber mais sobre o assunto. É evidente que o meu objetivo seria convencê-lo a aceitar que eu tivesse um parto natural em casa. Contactei-o e tivemos uma reunião muito agradável e esclarecedora. O meu marido ficou esclarecido e quase decidido, ponderando seriamente a hipótese de aceder à minha vontade. O único motivo consciente que o fazia não aceder de imediato era o medo e a desconfiança perante uma situação desconhecida e alvo de tanta desinformação e preconceito.

Felizmente, o meu marido acedeu, depositando a sua confiança em mim e naquilo que eu mais desejava. Foi um ato de respeito e de confiança, um ato de amor que me deixou radiante.

A gravidez prosseguiu de modo tranquilo e alegre. Fomos mantendo um contacto à distância com o enfermeiro e, por volta das 30 semanas, eu decidi que precisava de uma doula. Foi uma decisão um pouco tardia, mas muito acertada. Contactamos uma pessoa espetacular (a qual já tinha contactado no início da gravidez), especialista em hipnonascimento e decidimos fazer um curso de preparação para o parto através de hipnoterapia. Com algum esforço, lá conseguimos cumprir todas as sessões, as quais ajudaram em muitos aspetos, desde a minha preparação para o momento fantástico que se avizinhava, como o trabalho simultâneo da nossa relação connosco mesmos e um com o outro.

Tudo estava preparado para o grande momento. Tinha uma piscina insuflável em casa (cortesia do enfermeiro) para que fosse possível ter o parto na água, ou pelo menos, usar a água com facilidade durante a fase de dilatação.

Numa bela sexta-feira de manhã (dia 11 de Julho), véspera de lua cheia, tive o primeiro sinal de início do trabalho de parto: a perda do rolhão mucoso. A partir daí, comecei a sentir leves contrações (ou ondas, como aprendi a chamar-lhes) que foram aumentando gradualmente. Nesse mesmo dia, contactei o enfermeiro, para o avisar deste primeiro sinal e para que estivesse alerta e me pudesse acompanhar e/ou deslocar-se a minha casa, logo que necessário. Passei um excelente fim-de-semana, tranquilo, pois tinha-me preparado para a forte probabilidade de o parto ser longo, pelo que era conveniente não ficar ansiosa. Mesmo com contrações espaçadas e suaves, já não dormi sossegada mais nenhuma noite até ao grande momento, porque já sentia desconforto. Fui dormitando. Houve momentos ao longo desses dias em que quase não sentia nenhum desconforto e fui mantendo a normalidade da minha vida, tanto quanto me foi possível, com muitos momentos de lazer e descontração, na presença de amigos. No domingo fizemos uma enorme caminhada à beira-mar e nessa tarde, as contrações aumentaram bastante. Nessa noite e no dia seguinte, o desconforto era maior e sentia que o momento estava a ficar mais próximo. Na segunda-feira, o Papá encheu a banheira e eu comecei a “surfar” finalmente. Durante a noite de domingo e depois na segunda, a minha doula esteve presente e a dar-me todo o apoio que precisei (massagens, carinho, confiança). O meu marido também, mas enquanto estive com a doula, ele aproveitou para dormir, pois queria estar descansado para poder ter energia para o grande momento. Outro ponto importante: nestes dias, fui notificando o Enfermeiro acerca do meu estado. Em nenhum momento ele viu necessidade de estar presente e, até à noite de segunda-feira, eu também não!… Nessa noite, as contrações eram cada vez mais fortes e menos espaçadas, embora o intervalo entre as mesmas não fosse regular. Estive na água durante 1 hora seguida até que senti necessidade de sair. Cheguei a uma fase em que me senti bastante enjoada e estava a sentir-me fraca…Depois de várias idas ao quarto de banho…, deitei-me na cama e por volta dessa altura, pedi para ligar ao Enfermeiro, pois senti que era importante a sua presença, pois o parto parecia poder acontecer a qualquer momento. E foi aí que grande parte da minha intuição se confirmou! Após ter mantido esta pessoa informada do meu estado e da minha evolução desde a perda do rolhão mucoso, após ter confiado este grande e especial momento ao apoio e acompanhamento deste profissional, sinto que ele me “tirou o tapete”. Primeira chamada nessa noite: “como estava muito tranquila, ainda não valia a pena, porque o intervalo entre as contrações não era regular…” Segunda chamada, após sentir que o bebé estava mesmo a querer nascer (sentia-o bem em baixo) e de uma pequena hemorragia que indicava o início do parto (libertei um coágulo): “se teve hemorragia, então é melhor ir ao hospital!”, “se estiver tudo bem, depois pode voltar…”. Eu respondi quase a chorar que não queria ir ao hospital…mas ele nem sequer se dignou a sugerir vir ter comigo conforme tinha sido combinado. Clarificando: eu estava tranquila, pois preparei-me para tal, fiz uma formação em hipnonascimento, estava acompanhada de uma doula magnífica, estava rodeada de amor na minha casa, com a minha família. Apesar dos medos e das dúvidas, estava muito alegre e entusiasmada por ir receber o meu filho. Para além de tudo, sou Mulher e sou forte. Pelos vistos, o dito profissional não compreendeu isso, nem sequer se dignou tão simplesmente a honrar o compromisso e a acompanhar-me presencialmente.

Assim, olhando nos olhos do meu marido, e vendo o terror espelhado neles, decidi levantar-me a muito custo (estava com cerca de 9 cm de dilatação!!) e vestir-me à pressa para sair para o hospital. Nem tive tempo de me despedir como gostaria dos meus queridos animais e, cheios de medo, saímos de casa. A viagem para o hospital foi a pior da minha vida. Custava-me imenso fisicamente os movimentos do carro e emocionalmente estava aterrorizada: tinha em mente o pensamento de que o meu filho tinha desistido de viver. Naquela fase do parto, a adrenalina tem um impacto tremendo em nós. Embora o meu coração dissesse outra coisa, estava muito confusa e assustada. Achava eu que se o Enfermeiro me tinha dito para ir ao hospital, o caso poderia ser grave. Os minutos pareciam horas, mesmo quando cheguei à receção e esperei que me viessem atender. Fui para a sala de observação e fizeram-me o CTG. Durante o exame, tive 4 contrações dolorosas, as piores que tinha tido até aí, que me fizeram gritar e pedir ajuda pela primeira vez naquelas horas todas! Adrenalina no seu melhor…Isto também porque me obrigaram a ficar numa posição deitada de costas que é terrível! Ainda por cima, estava sozinha, pois não deixaram o meu marido entrar comigo. Disseram-me logo que o coração estava a bater, que em princípio estava tudo bem com o bebé. Isso ajudou-me a acalmar, mas não foi o suficiente.

Terminado o exame, fui para o consultório, onde me forçaram a ser examinada. Tive dores terríveis com isto e já sangrava bastante. Depois, a médica (iluminada!) disse-me, olhando para o resultado do exame, que eu não tinha tido contrações durante o mesmo. Eu fiquei ainda mais preocupada, questionando o que estava então eu a sentir!! Enfim, profissionalismo e humanidade ao máximo! No meio disto tudo, já eu tinha acedido à epidural, porque estava desesperada de dores (pelo caminho, até pensei que me poderiam fazer uma cesariana e livrar-me daquele sofrimento, salvando o meu filho!…). Lá fui então para um quarto, onde fui preparada e me administraram a epidural. A equipa responsável foi muito atenciosa. De seguida, fui para um quarto individual, que veio a ser o local do parto. A partir daí foi bem mais tranquilo. A dor passou, o bebé estava bem e eu comecei a acalmar e a pôr as ideias no lugar. O meu marido já estava comigo, desde a consulta. E começou ele também a sentir-se mais calmo, apesar de estarmos ambos exaustos. Aproveitamos para falar sobre a situação, sobre as decisões do nosso plano de parto (o qual tinha sido previamente enviado ao hospital) e aquilo que deveríamos comunicar e pedir à equipa que nos estava a assistir. Fizemos alguns pedidos, mas estes foram contornados, para não dizer desrespeitados…: não queria a episiotomia, queria que esperassem alguns minutos antes de cortar o cordão umbilical e queria manter a placenta. Coisas muito estranhas para eles!…Respeitar a vontade das pessoas não faz parte do protocolo. Fizeram-me acreditar no momento-chave que a episiotomia era necessária, pois o bebé não estava a sair e poderia estar em sofrimento. E lá me cortaram, de modo “consentido” na perspetiva deles. Não me interpretem mal, a equipa era simpática e atenciosa, de um modo geral. Esforçados até! Mas sinto que isso não foi de todo suficiente. Perdoem-me a minha vontade “estranha” de ter direito ao parto autónomo e saudável que o meu corpo me estava a proporcionar, no seguimento de uma gravidez fantástica e de baixo risco. Obrigaram-me a fazer força, a apressar, ao contrário da minha preparação para seguir os sinais do corpo e deixar sair. Depois, deram a tesoura ao Pai e ele cortou logo o cordão, como se algo estivesse em risco e tivesse que ser rápido. A placenta saiu logo e nem a vi!…

Felizmente, o bebé saiu bem e colocaram-no logo no meu peito, o que muito agradeço à enfermeira que me assistiu. Pude tocar-lhe logo e beijar a cabecinha do meu querido Filho. Ele sentiu a pele da Mãe. Deu-se o contacto. Outro “pequeno” erro: a enfermeira forçou-o a ir à mama e ainda ficou ofendida, por eu lhe ter pedido para ter calma!… Ainda tive que acalmar a enfermeira depois…

À parte de tudo isto, a minha alegria era imensa pela presença do David e por ele estar bem. Acredito que, apesar da epidural e do stress daqueles momentos finais, ele resistiu bem e foi protegido de algum modo. Sinto isso. Tirando a parte em que o limparam e mediram e pesaram, fazendo do teste de APGAR, esteve sempre comigo, junto a mim. A partir desse momento, todo o meu mundo ganhou um novo brilho, uma nova luz de vida física. De paixão e de proteção. Sentimentos avassaladoramente mágicos e maravilhosos. Indescritíveis.

Tive muito apoio do meu marido e da equipa de enfermagem, pelo que a minha curta estadia (2 dias) no hospital foi relativamente tranquila. No entanto, os pediatras deixaram-me desencantada e revoltada com o sistema. Nunca pensei que médicos que cuidam de crianças pudessem ser tão desumanos. E os protocolos, ai! Resumindo, forçaram-me a dar suplemento ao meu bebé e a submetê-lo à fototerapia, quando eu considerava tudo isso desnecessário nas primeiras 48 horas de vida e com valores que não eram preocupantes (contrariamente ao que alegavam os pediatras), mas sim normais perante toda a situação e recuperáveis naturalmente. Decidi cumprir minimamente as “recomendações”, de modo a que pudesse ter alta rapidamente. E fui dando toda a atenção, carinho e contacto possível ao meu Filho. Quando tivemos ambos alta, senti uma alegria enorme. A saída do hospital foi, para nós, semelhante à libertação de uma espécie de prisão!…

Quanto ao tal Enfermeiro, a sua atitude após o parto revelou ainda mais a sua falta de profissionalismo, pelo que acabei por tomar a decisão de não conversar com ele, numa tentativa de esclarecimento, conforme eu tinha planeado e faria, caso ele se dignasse a assumir o erro e a não colocar culpas em terceiros, num momento delicado, num total desrespeito pelo compromisso previamente assumido e num comportamento imaturo e duvidoso.

Após ter vivido tudo isto, depois de um trabalho de parto de aproximadamente 96 horas, já em casa, a minha confiança vacilou e duvidei que tivesse sido capaz de dar à luz em casa, na água, como desejava e conforme tudo indicava. Duvidei da minha capacidade, do meu corpo, da minha natureza e da minha abençoada saúde. Duvidei seriamente. Fraquejei um pouco. A minha querida doula foi quem me ajudou a recuperar a confiança em mim e no meu corpo, na minha natureza de mulher, na minha verdadeira força.

4 meses e meio passados, estou infinitamente grata pela minha experiência e pelo início desta aventura fantástica.

Com Amor,

C.

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