“Senti-me uma criança indefesa.”

[Relato anónimo, a pedido da mulher que o enviou]

Verão de 2014

Na noite antes da minha filha nascer, comecei a sentir-me estranha. Tinha dores fortes, mas não tinha contrações. Por volta das 5 da manhã, senti que estava a perder líquido, uma espuma. Era o dia em que fazia as 40 semanas.

Fui ao Hospital. Já andava com medo da indução. Entrei às 7h no bloco de partos. A enfermeira fez-me o primeiro de muitos angustiantes toques e disse que eu tinha de ser vista por um médico, mas que não lhe parecia que a bebé fosse nascer já.

No consultório, novo toque. Estava em trabalho de parto. Mandaram-me ir ter com as enfermeiras, despir-me, vestir a bata, tirar os brincos, colocar o clister. Procedimento habitual. Fiquei a tremer na casa de banho, cheia de medo. Tinha uma bebé muito grande para parir.

Perguntei se podia ir chamar o meu marido, mas não podia. Senti-me uma criança indefesa. Tinha de ir assinar a autorização da epidural, as autorizações. Papéis que assinamos para autorizar qualquer procedimento médico que seja necessário ou, em alternativa, vamos parir para a rua.

Lá fui ter com o marido e tivemos o último momento cómico do dia. O meu piercing não saía. Estava tudo a olhar para nós na sala de espera e a rir, mas lá nos safámos.

Fomos para a sala que nos calhou, a 2. As enfermeiras foram umas queridas.

Apanhei uma estagiária bastante prestável, mas que me aleijou a colocar o soro. Enfim. Chegou a soltar-se e a precisar de ser recolocado. Nada contra as estagiárias, muito pelo contrário, mas ela devia ter tido ajuda para fazer aquilo.

Começaram a dar-me medicação. Pelos vistos “a coisa” estava atrasada”. E começou o meu calvário. Toques atrás de toques. Enfermeiros, médicos. Enfim. As enfermeiras ainda eram cuidadosas, já os médicos, pelo amor de Deus.

Não estava ninguém connosco, se fosse preciso tínhamos de chamar alguém.

Mais uma vez, as enfermeiras sempre queridas e prestáveis.

O CTG estava sempre a sair do lugar e deixávamos de saber se os batimentos cardíacos da menina estavam bons. Como por vezes demorava a chegar alguém, éramos nós que o tentávamos colocar no lugar. Não posso culpar os enfermeiros, mas sim a contenção de custos.

A manhã foi passando. Não podíamos ter telemóveis connosco, estávamos isolados do mundo exterior. De vez em quando o meu marido ia lá fora contactar os nossos pais e comer alguma coisa.

Comecei a reparar que os 2 médicos que me observavam discordavam. A médica quase garantia que a menina nasceria de parto normal, enquanto o médico dizia que não.

Mais medicação.

Ao meio dia as águas rebentaram sozinhas. Chorei de emoção, pensei que o nascimento da minha menina estava para breve, o meu corpo parecia estar a responder tão bem!

Quando o meu marido saiu para almoçar aconteceu o momento que guardo na alma como um dos piores da minha vida. O médico voltou e sem uma palavra, fez-me o “toque” mais doloroso que alguma vez senti. Aquilo não foi um toque, juro que me pareceu que ele me arrancou o útero. Foi uma dor horrível. Ele viu-me a contorcer com dores e nem uma palavra me disse.

Nunca soube o que foi aquilo, se foi ele a tentar rebentar-me as águas, que já estavam rebentadas, se pensava que eu já tinha levado epidural… Muitas vezes acordei com esse momento, acho que nunca vou saber o que se passou e nunca vou perceber o porquê de nem uma palavra, nem um gesto de solidariedade perante tanta dor. Não sei como não gritei.

Começaram as contrações. As primeiras ainda se levaram bem, com as dicas das aulas de preparação para o parto. Mas depois… Só aliviava quando dava pontapés, mais nada. Chamaram a anestesista, que estava atrasada, ocupada com cesarianas, julgo eu. Até lá, foi a festa das contrações. Dores terríveis.

Quando ela finalmente chegou, tratou de me maltratar. Porque eu não conseguia dobrar-me. Claro, com uma barriga daquele tamanho! Embirrou comigo porque tenho um desvio na coluna. Contado ninguém acredita. Picou-me quatro vezes até conseguir.

Pensei que a coisa ia melhorar. Bom, melhorou das contrações. O problema foi que fiz uma reação estranha à epidural. Perdi as forças e fartei-me de vomitar.

Cada reforço, era a mesma coisa. Pensei que não ia aguentar. O dia todo com pouca água e apenas aqueles rebuçados estúpidos.

As horas passavam e os toques continuavam. Perdi a conta às pessoas que mos fizeram. Houve troca de turnos. Pensei seriamente se aquilo era mesmo preciso, se não havia quem chegasse lá e dissesse basta, alguém que me defendesse daquele martírio.

Pensava muitas vezes que aquele ainda ia ser o dia mais feliz da minha vida, para me dar força.

Fui para a bola de pilates, estranhei não poder sair do quarto. Foi só bola e cama. Lembro-me de muito sangue, lembro-me vagamente de punhos com sangue a sair de dentro de mim. O verdadeiro horror.

Comecei a perder a noção das coisas. Quando a médica voltou, disse para fazer força, disse que eu estava a fazer tudo bem e que a dilatação estava feita. Senti-me com esperança, o martírio estava a terminar. Deviam ser umas 22h00.

Tentaram meter a minha filha em posição para nascer, à mão. A dor foi tanta que me esqueci desse momento, o meu marido é que mo contou. Não sei se o teria permitido estando no meu perfeito juízo. Podiam tê-la magoado… Nem uma máquina de ecografias ligaram…

Tanta droga que me deram, meu Deus.

A minha menina tinha o pescoço torcido, estava subida e tinha o rabinho para um lado e as pernas atravessadas para o outro. Ela nunca nasceria de parto normal.

Foram precisas 14 agonizantes horas de trabalho de parto para desistirem do parto normal. Vá lá, não tentaram tirá-la com ajuda de ventosas. Se lhe acontecesse alguma coisa, eu ia presa, mas eu ia apanhar aqueles médicos e cometia um crime.

Quando me disseram que ia para cesariana chorei, desesperei. Sofri tanto, porquê tanto sofrimento se ela nunca nasceria de outra forma?

Lá fui. Lembro-me de me tirarem os pêlos, de me darem mais epidural. Mais vómitos, mais angústia. Tentava confortar-me, estava quase!

Quando ma tiraram estava a vomitar.

Só soube que ma tiraram porque senti uma pancada na barriga e perguntei se ela tinha nascido. Disseram que sim e levaram-na. Só vi a cabeça dela, só a vi por trás. Não ma mostraram, não a vi, não lhe toquei. Vi-a numa mesa ao fundo com 3 ou 4 pessoas de volta dela. Só perguntava se ela estava bem e não me respondiam.

Só por volta da 1 da manhã ma puseram ao lado, para ir ter com o pai (nasceu às 23h25m). Não a vi no dia em que ela nasceu. Que mágoa.

Não ma puseram na mama. Eu ainda tentei amamentar, mas não o sabia fazer. Acredito que isso prejudicou a minha produção de leite. Ela já saiu do Hospital com leite materno + leite artificial…

Custou-me tanto quando o meu marido teve de ir embora… Estava exausta, magoada…

Ao chegar à enfermaria encontrei um enfermeiro muito doce. Ela teve de ser alimentada e cuidada no berçário por eu não estar em condições de tomar conta dela. Mas ela tem um pai, pensava eu, e vai ter de passar a noite sozinha…

Depois foi a recuperação da cesariana, super dolorosa.

O dia mais feliz da minha vida? Não, não foi de certeza…

Houve enfermeiras que me foram ver lá acima, solidárias com a minha dor. Ao início não as reconheci.

Aliás, eu só chorava. As visitas chegavam e eu chorava, iam embora e eu chorava. Quase fiquei com depressão pós parto. Fiquei até magoada com a minha mãe (ela não sabe). Como podia estar ela tão feliz com o nascimento da neta se eu estava a sofrer tanto?

Dores, humilhação, vergonha, fragilidade.

Dores no corpo, dores na alma.

 

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4 thoughts on ““Senti-me uma criança indefesa.”

  1. Identifiquei-me com muito do que aqui foi dito… e chorei ao ler… Também senti que se esqueceram de mim… Espero que esteja tudo bem com a mãe e a bebé. Um beijo às duas. Maria

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  2. Maria Bernardo, obrigada pelo carinho. Estamos bem. A bebé já tem 14 meses. Ainda não esqueci, acho que nunca vou esquecer. Espero que as coisas mudem, que estes relatos tristes comecem a fazer parte do passado. Um grande beijinho

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    1. Que bom saber que estão bem, mãe e bebé! Desejamos que continuem um caminho suave de amor, juntas. Alguma coisa de que necessite, não hesite em contactar. Abraço da equipa da APDMGP

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